O Filósofo e a Poeta
Capítulo 2 - O desconhecido
Ele era um completo desconhecido. E isso havia chamado a atenção dela, que sempre tivera um certo prazer voyer quando parava em seu café favorito para uma hora do que ela considerava “uma experiência psicosocial”. Observava, na sua mesa de tradicional cliente, diversas pessoas entrando, algumas sós, outras acompanhadas. Ela as observava examinando livros, pedindo bebidas, acendendo charutos. Ah, o cheiro forte e intenso de um bom charuto! Ela nunca havia fumado, mas sentia um certo prazer no cheiro acre e forte do tabaco fumegando. Gostava e até divertia-se com as expressões dos homens que se sentiam até mais viris quando podiam segurar entre seus dedos um cubano autêntico. Essa presunção masculina a divertia.
Apagada em seu canto, observava os demais clientes e sobre eles criava as mais variadas teorias. “O careca do canto é corretor de seguros. Ou então vende enciclopédias. Aquela garota negra deve trabalhar no mesmo tipo de escritório que eu. Esse rapaz forte nunca deve ter lido um livro de verdade. Aposto que passa a maior parte do tempo em uma academia e o resto tentando impressionar as garotas.“ Fazia então seu jogo favorito, juntando todas essas personagens em um cenário particular. Criava hipóteses onde essas pessoas se encontravam, por motivos diversos, travavam relações, das mais inusitadas. Era como uma brincadeira de bonecas que preenchiam sua existência solitária.
Mas então ela deparou-se com ele. Teve uma grande surpresa ao perceber que não conseguia formular nenhuma teoria, nenhum conceito acerca daquele homem sério, compenetrado em sua leitura, sentado em outro canto do café. Em suas mãos, um livro de capa dura, de belo acabamento, mas com o título no que parecia ser alemão. Vestia-se bem, com um terno escuro, bem cortado e uma gravata séria, lisa, no mesmo tom do terno. Suas mãos eram grandes, “como mãos de lenhador”, pensou ela. Seus cabelos castanhos e claros estavam bem aparados logo acima das sobrancelhas. Tinha o queixo proeminente, mas não pontudo, e seu rosto revelava traços latinos de uma escultura renascentista. Tinha barba, mas esta era curta e bem cuidada. Ele ergueu os olhos e fitou-a, num profundo tom esverdeado e aquilino. Ela enrubesceu. Durante todos aqueles anos, nunca havia sido descoberta em seu hobby de observar pessoas. Agora, era ela a observada. Sentiu-se nua diante daquele desconhecido, de quem não conseguia formular o mínimo conceito. Somente a sensação de um aperto no estômago a dominava.
O desconhecido levantou-se e andou em sua direção, para o seu horror. Parecia sério mas sua boca quase erguia-se num sorriso simpático. O homem era alto, não, enorme. Parou quase diante dela.
– Crítica da Faculdade do Juízo, de Emmanuel Kant. – disse ele.
– Como? – reagiu ela, sem entender.
– Você pareceu interessada nisto. – apontou para o livro. – Esse é o título. Crítica da Faculdade do Juízo.
– Parece interessante.
– Você nem imagina o quanto!
Ela percebeu que a última frase fora dita em tom de irônica joça. Sorriu timidamente, conforme a convenção social manda. O homem perguntou se poderia sentar-se ao lado dela, por alguns momentos. Desarmada, aceitou. Não imaginava que aquela era a primeira noite do resto de sua vida.








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Muito obrigada e te seguindo tbem!
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